Publications

Etiquetas digitais ganham força como cérebro da operação do varejo

23 de January de 2026

Redes que utilizam a digitalização das gôndolas, como o supermercado Andorinha, em São Paulo, ilustram como a tecnologia está otimizando desde o picking para delivery até o engajamento emocional do cliente. Mas há limitações impostas pelo Código de Defesa do Consumidor

Gigantes do varejo global como Walmart e Kroger já dão sinais de que as etiquetas de papel podem estar com os dias contados nas prateleiras dos supermercados. Em um comunicado oficial divulgado há poucos meses, o Walmart diz que tem testado as Electronic Shelf Labels (ESLs) e que “a tecnologia aprimora a forma como a empresa realiza as alterações de preços nas lojas, tornando o processo mais ágil e melhorando a experiência do cliente”.

Neste mesmo anúncio, a companhia diz ter como meta instalar a novidade em 2,3 mil lojas até o fim de 2026. De forma um pouco mais discreta, a Kroger, outra importante rede de supermercados dos Estados Unidos, adotou o novo sistema em algumas lojas. Sem revelar em quais regiões ou em quantas lojas a tecnologia foi implantada, a companhia revela apenas que está avançando com as etiquetas eletrônicas de preço.

Movimentos como os do Walmart e da Kroger materializam, segundo Wagner Bernardes, executivo da Seal Tecnologia, fornecedora de etiquetas eletrônicas, o que antes poderia ser visto como um símbolo de status ou um “substituto sofisticado do papel”. Hoje, segundo ele, a novidade pode ser considerada uma ferramenta estratégica de eficiência operacional bem consolidada.

Nas palavras de Bernardes, os benefícios vão além da automação, já que a organização das gôndolas, com as etiquetas eletrônicas, torna o ambiente mais limpo e atraente aos olhos dos clientes, além de diminuir as chances de rupturas (falta de produtos) e economizar papel, ajudando o supermercado a manter sua operação mais sustentável.

Em São Paulo, o hipermercado Andorinha apostou na ferramenta e, por meio de um projeto piloto, em 2023, instalou 250 etiquetas eletrônicas na área de bebidas. Após seis meses, o hipermercado estendeu a adoção da tecnologia para a área total da loja. A implementação, realizada ao longo do primeiro semestre de 2024, envolveu também três cartazes digitais de 49 polegadas integrados às ESLs, além de oito antenas de radiofrequência.

A principal vantagem, segundo Flávio Boer, gerente sênior de TI do Andorinha, foi a automatização total do processo de troca de preços, que antes demandava de uma a duas horas diárias e até cem colaboradores. Hoje, as atualizações são automáticas e levam poucos segundos, via Wi-Fi, com integração ao sistema de gestão de preços que a loja já utilizava.

Para os consumidores, Boer diz que, além de exibirem preço e descrição dos produtos, as ESLs mudam automaticamente de cor – para vermelho, em casos de promoção. Já para os gestores da loja, as tags permitem identificar rapidamente em qual corredor o produto correspondente está posicionado. Os cartazes digitais exibem em tempo real as ofertas de alimentos e bebidas, reforçando a comunicação visual e dando impulso extra ao faturamento da loja.

Além disso, segundo Boer, a tecnologia permitiu realocar colaboradores para áreas mais estratégicas, reduzindo horas extras, e eliminou erros operacionais provocados pela necessidade de trocar manualmente as etiquetas impressas – sobretudo a divergência de preços, evitando surpresas na hora de o cliente fazer o pagamento no caixa.

Com o tempo, novas frentes de inovação foram exploradas, como a adoção de retail media, a ampliação do número de cartazes digitais e a integração de novos dados às etiquetas digitais – como a data de validade dos produtos.

Caminho percorrido no Brasil

Há 15 anos, quando a Seal trouxe a tecnologia para o Brasil, Wagner diz que as etiquetas eram monocromáticas e o investimento em dólar era proibitivo para muitos negócios. Mesmo com a flutuação do dólar, o executivo indica que o custo tecnológico ainda é significativo, porém, hoje, a empresa já disponibiliza novos modelos de negócio, como o aluguel (HaaS – Hardware as a Service) e a monetização de espaços de merchandising digital para fornecedores, que acabam pagando o investimento.

“Hoje, a solução é madura e consolidada. Não é mais uma questão de luxo ou beleza; ela resolve desafios reais dentro da loja”, afirma.

Além da democratização da tecnologia, a última década também trouxe uma evolução técnica drástica. Ele explica que se em 2010 as telas eram limitadas e monocromáticas, as etiquetas atuais são coloridas, gráficas e equipadas com NFC (Near Field Communication) – uma solução de comunicação sem fio de curto alcance – e Wi-Fi.

Para além dos custos, Wagner classifica que o “maior dos retornos” está na operação invisível. O uso de LEDs coloridos nas etiquetas revolucionou o processo de picking (separação de pedidos) para serviços como o iFood. Além da agilidade, a tecnologia reduz o fluxo de funcionários nos corredores, melhorando a experiência de compra do cliente final ao evitar aglomerações.

“O produto que o operador precisa pegar já está piscando. Isso gera um ganho de operação na ordem de 35%. É um projeto multidisciplinar que traz benefícios para todas as áreas”, diz.

Ele também aponta que, para o consumidor, a etiqueta digital deixou de ser um display estático para se tornar um ponto de interação. Lojas que já utilizam o NFC permitem que, ao aproximar o celular da etiqueta, o consumidor receba informações. Em uma loja de vinhos, por exemplo, essa interação permite que o consumidor receba dicas de harmonização e cupons de compra. Há também a possibilidade de integração com redes sociais para exibir, em tempo real, o rating (estrelas) e avaliações de quem já comprou o produto, tabela nutricional, composição técnica. Ou seja, uma abundância de dados que tende a influenciar a decisão de compra.

Olhando para o cenário dos próximos anos, o próximo salto tecnológico, na opinião de Wagner, se dará em uma visão computacional integrada. Ele diz que a Seal prepara o lançamento de câmeras inteligentes que rodam na mesma plataforma das etiquetas. Instaladas nos trilhos das gôndolas, essas câmeras fotografam o lado oposto para detectar rupturas em tempo real.

A migração para o digital também ganha força com o desenvolvimento de trilhos que dispensam o uso de baterias, eliminando a necessidade de troca a cada cinco anos e reforçando o compromisso com práticas globais de ESG (Ambiental, Social e Governança) das grandes redes. A redução de insumos gráficos e processos logísticos sinaliza um compromisso real com a sustentabilidade, algo cada vez mais cobrado por investidores e pelo público jovem.

Preços dinâmicos e o Código de Defesa do Consumidor

Toda essa movimentação do mercado põe em pauta os desafios da adoção dessa tecnologia em larga escala e ainda traz consigo algumas dúvidas jurídicas, e também comportamentais, que, segundo Nicoly Crepaldi Minchuerri, advogada do Mazzucco&Mello, exigem transparência para não ferir o Código de Defesa do Consumidor.

Ao lembrar que essa tecnologia introduz o conceito de “preço dinâmico” nas lojas físicas, Nicoly aponta que, embora o consumidor já pareça estar habituado a essa prática no e-commerce, ainda assim ela traz impasses quando aplicada no corredor do supermercado e, por isso, essa transição exige cautela.

Na prática, as novas etiquetas permitem que os funcionários alterem os preços a cada dez segundos. Portanto, se houver maior demanda por determinado produto, a loja pode aumentar o preço do item em questão. Da mesma forma, se algum produto estiver perto do vencimento, o preço pode ser reduzido.

Aplicativos como o Uber já utilizam preços dinâmicos, nos quais a maior demanda leva a preços mais altos em tempo real. Os preços costumam aumentar significativamente durante a hora do rush, quando a procura é maior, mas também quando há eventos ou mesmo durante períodos de chuvas, quando o trânsito fica prejudicado.

Há dois anos, a rede de fast food Wendy’s anunciou ter planos para precificação dinâmica via inteligência artificial (IA) com base na demanda e causou polêmica. O discurso da rede prega que a ferramenta viabilizaria um maior movimento durante períodos de baixa demanda, quando os preços são menores, e esse movimento “desafogaria” a cozinha em momentos de pico, com valores mais altos. No entanto, a cada nova declaração, os executivos da Wendy’s afirmavam se tratar de um projeto futuro.

“O preço é o elemento central da decisão de compra. Qualquer oscilação abrupta pode gerar insegurança”, alerta Nicoly.

No varejo, o conceito parece não ser diferente dos serviços – e também causa estranheza, segundo a advogada. Ela explica que a possibilidade de o preço de um produto mudar em tempo real, enquanto o cliente ainda está na loja, é um dos pontos mais sensíveis dessa transição. Do ponto de vista jurídico, ela diz que o Código é claro: os artigos 6º, 30º e 31º exigem que a informação seja clara, correta e precisa. Se um consumidor percebe que o valor aumentou entre a prateleira e o caixa sem aviso prévio, a relação de consumo sofre um abalo.

Se o valor aumentar entre a prateleira e o caixa sem aviso, a loja pode ser enquadrada em práticas abusivas, ela explica, e, por isso, essa inovação pode significar uma mudança profunda na dinâmica de consumo. Para Nicoly, quanto mais informado o consumidor se sente, menor é a percepção de risco e maior a confiança na escolha.

Embora ainda cercado de debates sobre o direito do consumidor, Wagner vê o preço dinâmico como uma ferramenta de benefício, especialmente em setores de Frutas, Legumes e Verduras (FLV), em que promoções agressivas ao longo do dia podem evitar desperdícios.

Embora a tecnologia permita reagir a promoções de concorrentes quase em tempo real, a automação total via inteligência artificial ainda não é a norma. A maioria dos varejistas adota um modelo semiautomatizado em que a IA sugere os ajustes com base em algoritmos de demanda e concorrência, mas a validação final ainda passa pelo crivo humano.

“No fim das contas, a tecnologia, quando usada com transparência e respeito ao dever de informação, não apenas moderniza a loja, mas fortalece o elo mais importante do mercado: a confiança do consumidor”, diz Nicoly.

Fonte: Diário do Comércio. Acesso: 23/01/2026.

If you have any questions about the topics covered in this publication, please contact any of the lawyers listed below or your usual Mazzucco&Mello contact.

Leonardo Neri Candido de Azevedo

+55 11 3090-9195

This communication, which we believe may be of interest to our customers and friends of the company, is intended for general information only. It is not a complete analysis of the matters presented and should not be considered legal advice. In some jurisdictions, this may be considered lawyer advertising. Please see the company's privacy notice for more details.

Related Areas

Related Professionals