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Do consumidor à ação coletiva: quando reclamações individuais geram riscos para as empresas

19 de fevereiro de 2026

No cenário atual das relações de consumo, reclamações aparentemente isoladas e de pequeno valor podem evoluir para desafios jurídicos de grande impacto. Muitas empresas ainda tratam conflitos individuais como episódios pontuais, mas a falta de atenção adequada pode resultar na instauração de inquéritos civis e, posteriormente, na propositura de ações coletivas, com consequências financeiras, operacionais e reputacionais relevantes. Resolver adequadamente demandas individuais não é apenas uma boa prática comercial, mas uma estratégia efetiva de mitigação de riscos.

O sistema brasileiro de proteção ao consumidor, estruturado pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), foi concebido para equilibrar uma relação naturalmente assimétrica. Além de disciplinar direitos individuais, o CDC dedica atenção expressiva à tutela coletiva, prevendo mecanismos voltados à proteção de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos. Assim, práticas que inicialmente aparecem como reclamações isoladas podem revelar falhas estruturais e justificar atuação coletiva.

Quando consumidores passam a relatar reiteradamente a mesma falha, cobrança indevida ou cláusula contratual questionável, o tema pode atrair a atuação de órgãos como o Procon e, especialmente, do Ministério Público. Este possui legitimidade para instaurar inquérito civil, procedimento investigatório extrajudicial destinado à apuração de possível lesão coletiva. Nessa fase, podem ser requisitados documentos, ouvidas partes interessadas e celebrados Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) ou Transações Administrativas (TA), instrumentos que permitem a adequação voluntária da conduta empresarial às exigências legais, com a fixação de obrigações, prazos e, eventualmente, compensações. Quando bem estruturados, esses mecanismos funcionam como importantes ferramentas de resolução consensual, evitando a judicialização do conflito e reduzindo significativamente a exposição da empresa a uma futura Ação Civil Pública.

 

Todavia, caso não haja acordo ou se for constatada a persistência da irregularidade, a situação pode evoluir para a Ação Civil Pública (ACP), prevista pela Lei da Ação Civil Pública. A ACP é um instrumento processual de caráter coletivo destinado à tutela de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos, amplamente utilizado em matérias consumeristas. Por meio dela, é possível requerer a cessação de práticas abusivas, obter a imposição de obrigações de fazer ou não fazer, declarar a nulidade de cláusulas contratuais e buscar indenizações por danos materiais e morais coletivos.

A efetividade das ações coletivas na defesa dos direitos dos consumidores é justamente o que torna crucial uma postura preventiva por parte das empresas: quando pequenos conflitos são negligenciados, eles podem se tornar a base de demandas estruturais que demandam não apenas reparação, mas mudanças duradouras em processos e políticas internas.

Sob a perspectiva processual, as ações coletivas reúnem elementos que potencializam o risco para as empresas. A concessão de tutelas de urgência, por exemplo, pode impactar de forma imediata a dinâmica operacional da empresa. A ampla divulgação dessas demandas também pode repercutir de maneira negativa na reputação institucional. Soma-se a isso o fato de que uma decisão coletiva favorável aos consumidores pode servir de fundamento para futuras execuções individuais, ampliando consideravelmente o passivo empresarial.

Por isso, a gestão de reclamações individuais deve ser encarada como parte de uma estratégia ampla de compliance e mitigação de riscos jurídicos. A revisão periódica de contratos, o monitoramento sistemático de reclamações repetitivas, a atuação jurídica preventiva e a resposta técnica imediata a conflitos, mesmo que aparentemente pequenos, não são apenas medidas de boa governança, são também instrumentos essenciais para evitar a escalada desses conflitos para inquéritos civis e ações coletivas.

Em suma, uma reclamação isolada pode ser o primeiro sinal de um problema mais profundo. Ao ignorá-la ou tratá-la de forma superficial, a empresa abre espaço para que o conflito evolua para instâncias formais de fiscalização e, eventualmente, para ações coletivas com efeitos amplos e duradouros.

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